domingo, 21 de agosto de 2011

Linda, você é tão linda.


"Now I can't of there without thinking of you
I doubt that comes as a surprise
And I can't think of anything to dream about
I can't find anywhere to hide
And when I'm hanging on by the rings around my eyes
And I convince myself I need another
For a minute it gets easier to pretend that you were just some lover"




Os olhos rolavam rápidos para o lado, para o nada, tentando ao máximo evitar um contato visual tão intenso. Ele insistia. Ele queria saber, queria entender, queria buscar uma fórmula escondida naqueles olhos fugitivos que ninguém mais via. Ele queria ver. Linda, você é linda. As mãos tremiam frenéticas com o toque, o corpo doía inteiro ensaiando uma mentira. Ela forte, obstinada, ansiava o engano de pensar que aquele momento, aquele corpo, aqueles olhos, aquelas mãos juntas, coladas, adequadas, eram apenas mais uma parte do quebra cabeças, e não a peça final. A menina queria de todas as formas ocultar o arrepio e fugir insistente da confissão de que aquele encontro, por mais carnal, tocava sua alma. Tocava fundo. Todas as tentativas de fuga eram vítimas do medo trazido por aqueles olhos doces e mansos que pintavam fantasias, castelos, príncipes e noites estreladas. A primeira reação era sempre esse teatro evasivo. Era sempre buscar a saída mais próxima como se algo irreversível estivesse prestes a acontecer. E estava.

Foram dois meses difíceis. Depois do começo, a confusão se torna constante. Os dias se tornam mais longos e as imagens mais nítidas. O mesmo pensamento intransigente acompanhando desde os primeiros minutos antes de fechar os olhos até os últimos antes de abri-los. O corpo doía inteiro com o peso da verdade. Um sorriso crescente nos lábios com prazo de validade. Uma rosa murchando. A menina, forte, obstinada, havia tentado. Irônico ou não, ela havia tentado. Não por ser fraca, mas por sua força se tornar tão grande a ponto de suportar encarar o pôr-do-sol. Não chorou. A fome se perdia às vezes, as luzes mais fracas, as dores mais fortes. Não chorou. Não hesitou. O mesmo ensaio doentio. Melodia velha. Ela não partiu. Ela ficou. Pela primeira vez ela desejou ficar. E ficou. O coração batendo forte, rápido, lento, louco. As mãos trêmulas quase derrubavam o cigarro que chegava ao fim. Ele olhava disfarçado, dissimulado, ridicularizando sentimentos. Ela permanecia parada, embora se movesse. Parada por dentro, pura pedra velha e feia, sentindo algo tocar suas mãos, ou sentindo que algo deveria estar tocando e segurando suas mãos. Algo que não estava ali, e talvez nunca tivesse estado. Os mundos colidiam. A cabeça confusa, fantasia e realidade davam as mãos. Tudo que ouvia naquele momento eram sussurros: Linda, você é tão linda. E a imagem dele gravada no peito. Até quando?